29.1.09

Deste lado da história (VII)

A Associação de Propaganda Feminista e a Primeira Eleitora


A Associação de Propaganda Feminista foi fundada em 12 de Maio de 1911 por Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo, Maria Irene Zuzarte, Maria Laura Monteiro Torres e Rita Dantas Machado, entre outras. Esta colectividade nasceu das divergências surgidas na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, potenciadas pela questão do sufrágio feminino.
Entre Novembro de 1910 e Maio de 1911, as feministas republicanas das duas colectividades empenharam-se activamente na propaganda do voto feminino, realizando conferências, escrevendo no jornais e entregando petições aos órgãos de soberania.
A nova lei eleitoral da República, publicada em 14 de Março de 1911, concedia o voto a todos os cidadãos portugueses, maiores de 21 anos, chefes de família que soubessem ler e escrever. As feministas, embora desiludidas por a lei não explicitar o voto feminino, decidiram aproveitar a ambiguidade da mesma e, considerando-se cidadãs de pleno direito, algumas decidiram requerer o seu recenseamento nas listas eleitorais. Perante as dificuldades levantadas pela Comissão Eleitoral e a resposta negativa do Ministro do Interior, António José de Almeida, chamado a esclarecer a omissão legislativa no que respeitava ao sufrágio feminino, todas as mulheres desistiram da sua pretensão, excepto Carolina Beatriz Ângelo.
Esta médica, viúva e mãe de uma filha menor, decide desafiar os poderes instituídos e recorre aos tribunais, argumentando que a lei, apesar de não contemplar o sufrágio feminino também não o excluía, porque ao enumerar os requisitos do cidadão eleitor não fazia referência ao seu sexo. O protagonismo de Carolina neste acto de insubmissão em relação à lei e ao governo provisório da República que a produziu, lançou a polémica na imprensa e na sociedade portuguesa, o que serviu para alertar, consciencializar e reflectir sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Neste debate muito participado, sobressaem os rostos e as vozes de Ana de Castro Osório e de Maria Veleda em defesa do voto das mulheres e no comentário das opiniões contrárias vindas a público, desmontando os frágeis e falaciosos argumentos dos seus opositores.
O direito de voto foi assegurado a Carolina Beatriz Ângelo pelo juiz João Baptista de Castro no Tribunal da Boa Hora. De salientar que este juiz era pai de Ana de Castro Osório e defendia as pretensões das feministas, o que está patente no notável acórdão da sentença proferida. As feministas consideraram que a conquista do voto estava definitivamente assegurada e que a Assembleia Constituinte a alargaria a todas as mulheres que soubessem ler e escrever ou fossem economicamente independentes, tal como tinha sido pedido pela Liga.
Carolina exerceu o seu direito de voto em 28 de Maio de 1911, participando na eleição dos deputados para a Assembleia Constituinte e tornando-se na primeira mulher eleitora em Portugal e na Europa do Sul. Recorde-se que, nesta data, apenas dois países europeus, a Finlândia e a Noruega, tinham concedido o voto às mulheres.
A notícia correu o país e os círculos feministas de todo o mundo e foi motivo de missivas entusiastas de felicitações a Carolina e à Associação de Propaganda Feminista, enviadas por organizações congéneres. Vieram também a Portugal repórteres estrangeiros para entrevistar a primeira eleitora portuguesa e conhecer a nova realidade política do país. Esta vitória serviu de credencial para a filiação desta nova agremiação na International Women Suffrage Aliance.
Contudo, apesar dos esforços desenvolvidos pelas feministas e das promessas dos republicanos, a lei eleitoral de 1913 excluíu as mulheres do direito de voto. Desiludidas mas não vencidas continuaram a lutar pelo direito de cidadania e de participação política na res publica.

Natividade Monteiro

Parabéns Germaine

Germaine Greer nasceu a 29 de Janeiro de 1939 em Melbourne, na Austrália. Mudou-se para a Europa em 1964, e doutorou-se na Universidade de Cambridge em 1968. A publicação do seu livro «The Female Eunuch»/A mulher eunuco (1970) gerou muito debate sobre os temas feministas e levou-a a assumir um papel de porta-voz do movimento feminista. O seu livro analisa a representação misógina das mulheres na sociedade, na arte e na literatura, e marca o início de uma crítica ao patriarcado. Em «The Whole Woman» (1999) Germaine observa o progresso da posição das mulheres nas sociedades ocidentais, desde 1970; em «The Boy» (2003), Greer explora o ideal icónico do belo rapaz atravéa da história de arte, avançando que a sociedade moderna reprimiu o seu conhecimento dos prazeres da pré-pubescência da forma masculina.
Germaine Greer é, para além de académica, jornalista e critica literária. Escreveu também: «The Madwoman's Underclothes», uma série de ensaios, «Slip-Shod Sibyls: Recognition, Rejection and the Woman Poet». Germaine escreve regularmente uma crónica no jornal inglês The Guardian.

28.1.09

Vestir a bata

No próximo dia 31 de Janeiro, entre as 10h e as 17h cerca de 350 investigadores do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) convidam o público a visitar os laboratórios e a conhecer os temas e as pessoas por trás da investigação científica. Num dia de homenagem a Charles Darwin e à Teoria da Evolução, podemos ficar a conhecer uma parte da investigação do ITQB. Através de exposições e conversas, poderemos saber mais sobre os primórdios da vida, explorar a diversidade das moléculas e dos organismos, e descobrir como funciona a selecção natural. Sábado é assim dia de vestir a bata e conhecer as técnicas que os investigadores usam para descobrir. E porque não participar num mural de arte e ciência e dar um novo uso às publicações científicas? Durante o «dia aberto» há visitas a alguns dos laboratórios: com os investigadores do ITQB este dia pode proporcionar uma viagem inspiradora. (Av. da República - Estação Agronómica Nacional, Oeiras).

27.1.09

Deste lado da história VI


A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (III)

Com a implantação da República em 5 de Outubro de 1910, as feministas republicanas que militavam na Liga julgaram ter chegado o momento de apresentarem as suas reivindicações ao novo regime político.
Em 27 de Novembro do mesmo ano, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas entregou uma petição ao governo em que reclamava a revisão imediata do Código Civil, a lei do divórcio e o sufrágio feminino. Como correligionárias fiéis não quiseram dificultar a vida aos órgãos de soberania e, por isso, foram moderadas nas exigências, pedindo o voto apenas para algumas mulheres: comerciantes, industriais, empregadas públicas, administradoras de fortuna própria ou alheia, diplomadas, escritoras.
A reivindicação do voto apenas para as mulheres que pagassem impostos ou pertencessem à elite intelectual não agradou a todas as sócias da Liga, sendo este o ponto da discórdia que levou à divisão das feministas em duas facções: uma mais conservadora e minoritária, liderada por Ana de Castro Osório, e outra mais radical e maioritária, chefiada por Maria Veleda (foto no topo).

Ana de Castro Osório (foto acima) demitiu-se da direcção da Liga e da Revista A Mulher e a Criança e, juntamente com Carolina Beatriz Ângelo, Joana de Almeida Nogueira, Rita Dantas Machado, entre outras, fundou a Associação de Propaganda Feminista, centrada na reinvindicação do voto. Maria Veleda foi eleita para a substituir nos dois cargos, imprimindo à direcção da colectividade um carácter mais revolucionário e combativo na luta pelos direitos de todas as mulheres.
Ana de Castro Osório e Maria Veleda serão as vozes e os rostos mais visíveis na imprensa da época, argumentando em defesa dos seus pontos de vista em relação ao voto das mulheres e contribuindo para um debate nacional sobre este tema tão candente, novo e controverso. Abstraindo das opiniões de vários quadrantes masculinos, centremo-nos nas ideias defendidas por estas duas dirigentes feministas.
Ana de Castro Osório, em consonância com muitos dirigentes republicanos, considerava que a maioria das mulheres portuguesas não estava suficientemente educada para votar em consciência e, sendo elas maioritariamente analfabetas, politicamente incultas, dominadas pelo obscurantismo do preconceito e influenciadas pelo conservadorismo religioso, o seu voto seria contrário e prejudicial à República. Assim, defendia o voto apenas para as mulheres instruídas, economicamente independentes e politicamente esclarecidas.
Maria Veleda manifestava-se contra o voto restrito por agravar a situação de desigualdade existente entre as mulheres portuguesas, argumentando que a maioria não teve sequer a oportunidade de aceder à instrução e à educação que lhe permitisse a autonomia económica e a emancipação da tutela masculina. Se se reconhecia às mulheres o direito de voto, era uma incoerência reclamá-lo só para aquelas que pagassem impostos ou fossem consideradas intelectuais. Seria também uma injustiça negar a algumas um direito que era de todas. As mulheres, ricas ou pobres, intelectuais ou analfabetas, deviam votar em igualdade de circunstâncias com os homens, pois não se compreendia que a ignorância e o analfabetismo fossem invocados para restringir os direitos cívicos e políticos das mulheres e não os dos homens. Em sua opinião devia pedir-se “tudo” e se não dessem “tudo” não se aceitaria “nada”.
A polémica em torno do sufrágio feminino durou alguns meses, enquanto o governo preparava a nova lei eleitoral com vista às eleições para a Assembleia Constituinte de 1911, realizadas em 28 de Maio desse ano, nas quais votou a primeira mulher portuguesa e da Europa do Sul, Carolina Beatriz Ângelo.


Natividade Monteiro

26.1.09

Tina



«Look me in the heart», de Tina Turner, ou Anna Mae Bullock (Brownsville, Tennessee, 26.12.1939).

Deste lado da história (V)


A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (II)

A ideia desta organização política e feminista, fundada há um século e apoiada pelo Directório do Partido Republicano foi lançada em 1908, assinalando-se a divisão entre as intelectuais monárquicas e republicanas adeptas da causa da emancipação feminina, apesar de terem agido conjuntamente em algumas iniciativas, nomeadamente, na petição a favor da legalização do divórcio. As monárquicas Domitila de Carvalho e Olga Morais Sarmento da Silveira serão as “baixas”mais importantes.
Em 1909, os corpos gerentes da «Liga» e da Revista A Mulher e a Criança, órgão de imprensa entretanto criado, são constituídos por Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete e Carolina Beatriz Ângelo, às quais se juntaram Adelaide Cunha Barradas, Amélia França Borges, Ana Maria Gonçalves Dias, Camila Sousa Lopes, Fausta Pinto da Gama, Filomena Costa, Maria Benedita Pinho, Maria Veleda e Rita Dantas Machado.
Maria Veleda, apesar de inseparável das três primeiras dirigentes acima citadas, não fez parte da comissão organizadora da «Liga», porque António José de Almeida a julgava demasiado revolucionária e isso poderia intimidar as mulheres mais conservadoras que nela quisessem ingressar. Todavia, ela viria a tornar-se a dirigente eleita que, por mais tempo, presidiu aos destinos desta colectividade e dos seus órgãos de imprensa «A Mulher e a Criança» e «A Madrugada».
A «Liga», sob a direcção de Maria Veleda criou em 1909 a «Obra Maternal», destinada a recolher e educar as crianças abandonadas, pedintes ou em perigo moral que deambulavam pelas ruas de Lisboa. Durante os sete anos da sua existência, sob a orientação da «Liga», não teve qualquer ajuda do Estado, sendo sustentada pelas respectivas sócias e por outras pessoas associadas, recrutadas na sociedade civil. A «Obra Maternal» enfrentou grandes dificuldades financeiras que foram sempre superadas, graças a várias iniciativas, das quais destaco a criação do Grupo Dramático da «Liga» para representar peças de teatro educador, feminista e revolucionário, escritas por Maria Veleda e representadas nos Teatros Étoile, República, Trindade e Ginásio, em Lisboa, e no Teatro do Grémio Artístico Comercial de Torres Vedras. Em 1916, a «Obra Maternal” passou à responsabilidade da Cruzada das Mulheres Portuguesas para assistir também aos órfãos de guerra. No âmbito da protecção às crianças, a «Liga» fez campanhas nacionais e entregou petições aos órgãos de soberania para legislar contra a venda de álcool e tabaco a menores, o lenocinio e a prostituição infantil, empenhando-se directamente na condenação de duas proxenetas de Lisboa que raptavam ou aliciavam meninas pré-adolescentes para as prostituírem. Também reclamou a alteração das leis que permitiam o pagamento de fiança a detidos por abuso sexual de menores.
As dirigentes da «Liga», conscientes de que a maioria das mulheres não teve acesso à instrução ou lhes era vedada uma educação equivalente à dos homens, procuraram remediar essa injusta desigualdade, criando cursos de comércio, de enfermagem e de francês, a fim de as tornarem aptas para o exercício de uma profissão que lhes garantisse a autonomia económica. A luta pela instrução, protecção e educação cívica das crianças e das mulheres foi o princípio orientador das acções da «Liga», assim como de todas as outras Associações femininas e feministas, criadas nas duas primeiras décadas do século XX. Só a educação podia contribuir para a emancipação das mulheres e a construção de uma sociedade mais justa e um mundo melhor.
(continua)

Natividade Monteiro

24.1.09

Deste lado da história (IV)



A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas

Foi há um século, em 1907, que um grupo de mulheres instruídas e cultas fundou o «Grupo Português de Estudos Feministas», com o objectivo de difundir os ideais da emancipação feminina, fundar uma biblioteca e publicar estudos destinados a instruir e a educar a mulher portuguesa, a fim de melhor desempenhar as funções de mãe e educadora da sociedade futura. O «Grupo», dirigido por Ana de Castro Osório e que agregava intelectuais, médicas, escritoras e, sobretudo, professoras, teve uma existência efémera, mas ainda publicou alguns folhetos que reproduziam discursos, conferências e outros textos de autoria das principais dirigentes, preenchendo assim uma grande lacuna de leituras de teor feminista, acessíveis às mulheres portuguesas.
É em torno deste núcleo que se vai fundar a «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas». A ideia é lançada em Agosto de 1908 por Ana de Castro Osório e António José de Almeida e apoiada por Bernardino Machado e Magalhães Lima. Este projecto, acarinhado pelo Partido Republicano, vai tomar forma legal em Fevereiro de 1909, constituindo-se numa associação, simultaneamente, política e feminista. Os dirigentes republicanos apoiavam e incentivavam a luta reivindicativa das mulheres pela igualdade de direitos que lhes permitissem uma maior intervenção na vida social, económica e política do país mas também lhes interessava criar mais uma frente de combate à monarquia, sobretudo, por o sexo feminino ser conotado com o obscurantismo religioso e o conservadorismo político. A «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas», fundada com o objectivo de “orientar, educar e instruir, nos princípios democráticos, a mulher portuguesa, fazer propaganda cívica, inspirando-se no ideal republicano e democrático e promover a revisão das leis na parte que interessa especialmente à mulher e à criança”, será a primeira, a mais duradoura e combativa associação a conciliar a defesa e a difusão dos ideais feministas e republicanos.
Esta aliança entre feminismo e política resultava da crença manifestada pelas dirigentes que a «Liga» constituia a mais segura garantia de, no futuro, quando a República fosse uma realidade, o governo atenderia as justas reivindicações das mulheres, tal como o Partido Republicano vinha prometendo e reiterou no Congresso de Setúbal de 1909. Durante os dez anos de existência da «Liga», as mulheres viveram momentos de esperança e confiança no cumprimento dessas promessas mas também momentos de descrença e desilusão por não verem satisfeitas muitas das suas reivindicações, nomeadamente, o direito de voto. Sentiram-se atraiçoadas pelos seus correligionários e muitas não lhes perdoaram. Para muitos republicanos, a «Liga» era uma extensão do Partido, muito útil na propaganda dos ideais da República, visto que muitas das dirigentes eram escritoras e brilhantes oradoras.
A «Liga» fundou a Revista A Mulher e a Criança, distribuída gratuitamente a cerca das mil associadas, com as mais variadas profissões: domésticas, empregadas do comércio, modistas, operárias, parteiras, dentistas, farmacêuticas, médicas, proprietárias, professoras, escritoras e jornalistas. Todas elas constituíram a vanguarda revolucionária do movimento social da emancipação feminina, um importante núcleo da propaganda republicana e um precioso reduto na defesa e consolidação dos ideais da liberdade e democracia.
(Continua)

Natividade Monteiro

23.1.09

«Alegria de viver»

A cidade das mulheres recomenda: «Joie de vivre/Alegria de Viver» de Niki de Saint Phalle em Évora, inaugura hoje às 18h30, na Fundação Eugénio de Almeida.

22.1.09

Camões está de parabéns


Começou por se chamar Junta de Educação Nacional (JEN), e estava integrado no Ministério da Instrução Pública. «A partir de uma vontade expressa nos primórdios da República Portuguesa, Bernardino Machado, então Ministro dos Negócios Estrangeiros, iria defender o desenvolvimento do ensino e promoção no estrangeiro da Língua, História e Geografia portuguesas, propósitos ampliados e consagrados com a criação da Junta de Educação Nacional, em 1929.» Assim conta Simonetta Luz Afonso, presidente que hoje comemora o aniversário dos 80 anos da instituição. Quem primeiro o dirigiu foi Gago Coutinho. Depois de se chamar JEN, passou a Instituto para a Alta Cultura (IAC), entre 1936-1952, e após 1952 caiu o para e entrou o de, até 1976. Naquela data, foi extinto como IAC e criado o Instituto de Cultura Portuguesa (ICAP), que em 1980 ganhou mais um nome: Instituto de Língua e Cultura Portuguesa (ICALP). Em 1992 desapareceu o ICALP e foi criado o Instituto Camões, tutelado então pelo Ministério da Educação e Ciência, mas rapidamente transferido em 1994 para a tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde permanece. A Biblioteca Digital Camões é um sítio a visitar, bem como a exposição que faz a história destes 80 anos da génese do Instituto Camões, cuja sessão comemorativa se realizou hoje pelas 12h30, na Avenida da Liberdade, 270.

21.1.09

Deste lado da história (III)

A ideia de começar neste mês de Janeiro de 2009 a publicar textos que nos devolvem à história das mulheres na 1ªRepública vai ao encontro desta necessidade de dar a palavra às mulheres e de assim contribuir para dar a conhecer o trabalho das nossas antepassadas, mas também das nossas contemporâneas. Como refere Natividade Monteiro (investigadora cujos textos A Cidade das Mulheres agora acolhe), as mulheres foram, desde sempre, esquecidas e só há algumas décadas se sentiu necessidade de as incluir na História, se bem que elas sempre tenham feito parte dela, embora invisíveis e silenciosas, porque os critérios da historiografia eram outros, aliás hoje muito contestados. De salientar que nas Histórias ultimamente publicadas, as mulheres tornaram a ser esquecidas. Continuamos a ter uma História tradicionalmente masculina. Além disso, os Estudos sobre as mulheres, os de Género, ou História das Mulheres, não estão a ser incluídos em muito do que por aí publica. Incoerências. Na História que se ensina, as mulheres continuam a não existir. Há um grande desfasamento entre a produção de estudos académicos e o que chega aos alunos através dos programas didácticos ou currículos.
Sobre este último aspecto, muito nos terá a dizer o estudo de Maria Teresa Alvarez Nunes, publicado pela
CIG em 2007 (ver foto abaixo).



As origens da emancipação feminina em Portugal

A herança iluminista que defendia a liberdade e a igualdade de todos os cidadãos mudou regimes políticos, laicizou a cultura e valorizou a instrução e a educação como motores de progresso económico e social e fontes de felicidade individual e colectiva. Algumas mulheres da burguesia culta e informada aproveitaram os ventos modernizadores que sopravam da Europa mais progressista e iniciaram o processo de emancipação feminina, emergindo no espaço público, sobretudo como tradutoras, escritoras e professoras.
Embora lentamente, muitas mulheres instruídas viram na escrita e no ensino uma forma de escaparem ao silêncio e à invisibilidade que, desde há muito, a sociedade impunha ao sexo feminino. Ao longo do século XIX, estas mulheres fazem da imprensa periódica a sua tribuna, exprimindo ideias, debatendo problemas e propondo soluções. É através da escrita que se afirmam como seres independentes, que se pretendem livres de qualquer tutela, e reclamam o lugar a que se julgam com direito.
Se na primeira metade do século muitas se escondem sob o anonimato, na segunda metade assumem sem preconceitos as suas identidades e aventuram-se na fundação e direcção de revistas e jornais e na propagação das ideias emancipadoras do direito à educação e ao exercício de uma profissão, a fim de se tornarem economicamente autónomas. Em 1849, surge A Assembleia Literária, o primeiro jornal fundado e dirigido por uma mulher, Antónia Gertrudes Pusich, consagrado à instrução do sexo feminino. Nos anos que se seguem, entre os periódicos femininos destinados a entreter a preguiça e a frivolidade, aparecem outros apostados na defesa dos direitos das mulheres e na mudança de mentalidades e comportamentos sociais. Francisca Wood funda A Voz Feminina, em 1868 e O Progresso em 1869; Guiomar Torrezão toma a direcção d’O Almanaque das Senhoras em 1870; Elisa Curado dirige A Mulher, surgido em 1883; Beatriz Pinheiro funda e dirige A Ave Azul em 1898.
Na viragem do século, este grupo de mulheres dá lugar a outro que, também na imprensa, se vai assumindo como vanguarda mobilizadora do movimento feminista da primeira vaga que reivindica a igualdade de direitos jurídicos, económicos, civis e políticos entre os sexos. Se, no início, a convergência de ideais unia mulheres conservadoras e monárquicas, como Olga Morais Sarmento da Silveira e Domitila de Carvalho, às republicanas Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete, Maria Veleda e Carolina Beatriz Ângelo, entre outras, com a aproximação destas últimas ao Partido Republicano, dá-se a cisão definitiva.
Nas primeiras décadas do século XX surgem assim as associações femininas e feministas que agregam mulheres de todos os estratos sociais: escritoras, professoras, médicas, advogadas, comerciantes, industriais, costureiras, domésticas. As mulheres republicanas fundam os seguintes grupos: em 1907, o «Grupo de Estudos Feministas», em 1909, «A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas», em 1911, a «Associação de Propaganda Feminista», em 1914, o «Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas», em 1915, a «Associação Feminina de Propaganda Democrática» e, em 1916, a «Cruzada das Mulheres Portuguesas».
A aliança entre os dirigentes do Partido Republicano e as mulheres republicanas foi reforçada com a iniciação de muitas delas na Maçonaria e a militância activa na «Loja Humanidade», agremiação feminina com igualdade de direitos e representação junto das hierarquias maçónicas. Naquela época, maçonaria feminina, República e feminismo eram expressões do mesmo ideal e espaços de intervenção na conquista da liberdade, da igualdade e do direito de cidadania.

Natividade Monteiro

20.1.09

Parabéns Anabela


Anabela Baldaque faz hoje anos e a cidade das mulheres canta-lhe assim os parabéns 'a você'. A criadora de moda começou nos anos 80 a desenhar roupa, criando a etiqueta «anabela baldaque» em 1988. Depois, co-fundou com um grupo de designers a galeria código, no Porto, um espaço de acolhimento de várias artes, e de vários designers, que haveria de fechar na segunda metade dos anos 90.

Anabela tem desde Setembro de 2000 o seu próprio espaço, na rua Padre Luís Cabral, 1080, Porto, onde se vestem várias gerações de mulheres - as avós, as filhas e as netas. (O seu papel na moda em Portugal é contado em Cristina L. Duarte, 15 histórias de hábitos - criadores de moda em Portugal, Quimera, Lisboa, 2003).

[Fotografia Rui Vasco/Arquivo ModaLisboa, Colecção Verão 2008]

Tema do dia

No contexto da Tomada de Posse de Barack Obama, Ruth Wilson Gilmore da University of Southern California, Los Angeles dá hoje uma Conferência intitulada «Regime-Change in the United States: What's Old and What's New in the Age of Obama?», pelas 16 horas, no Anfiteatro II, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Vozes femininas


No dia 21 de Janeiro, quarta-feira, pelas 18h, 21 de Janeiro, às 18h,na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Av.Berna, 26, Torre B, 7º Piso, sala de reuniões), da Universidade Nova de Lisboa, é apresentada mais uma sessão cultural Faces de Eva, Estudos sobre as Mulheres, com a comunicação Vozes femininas de uma guerra: uma outra memória da guerra colonial, por Margarida Calafate Ribeiro, Investigadora e Professora do CES – Universidade de Coimbra.
[Na foto, imagem da capa da revista 20 Faces de Eva, 2008, cuja edição teve como tema Simone de Beauvoir].

19.1.09

Dias cinzentos (II)

Dias cinzentos estes, em que os nomes que nos habituámos a ver e ouvir desaparecem deste mundo terreno. Ontem desapareceu João Aguardela, um dos músicos fundadores dos Sitiados, um grupo surgido em 1987, que cruzava o rock com a música popular portuguesa com resultados electrizantes e claro muito dançantes, para o que contribuía a introdução de instrumentos como o acordeão - quem não se lembra de ver a Sandra Baptista a tocar com grande dinâmica de palco o seu acordeão? Durante os anos 90 os Sitiados embalam numa onda muito viva, cruzando as raízes populares e atlânticas - do qual é primeiro sintoma o «Vida de marinheiro» - com a música de dança e depois com a tecno. Após o primeiro álbum «Sitiados», em 1991, gravam o seu segundo disco intitulado «E Agora?» (deu origem a uma T-shirt, cuja frente está na foto acima - da colecção de memórias da música popular portuguesa que guardo com carinho).
João Aguardela, que faria 40 anos em Fevereiro, foi também mentor de A Naifa, com Luís Varatojo, projecto musical de fado-electro-rock, do qual fazia parte a cantora Maria Rodrigues Teixeira (A Naifa, na foto de Rita Carmo, com Aguardela ao centro).

Dias cinzentos (I)

No sábado passado desapareceu Tereza Coelho, um nome que sempre me habituei a ler, nos jornais, ou nos livros. De tudo o que ela foi, nome das letras, jornalista e crítica literária, escritora, editora, queria aqui salientar o seu papel na divulgação dos criadores de moda portugueses e portanto na interpretação das novas linguagens de moda que eram frescas no dealbar da década de 80.

Tereza Coelho escreveu com Assunção Avillez um dos livros - durante muito tempo o único - importantes para se estudar o fenómeno da moda em Portugal, já que inventaria os seus vários sectores/protagonistas, desde 1960, até aos anos 80, tendo sido publicado em Novembro de 1987, pelas edições Rolim.
Como conta Ana Salazar, «É nos anos 80 que surgem os primeiros jornalistas de moda, que vindos da área da psicologia ou da sociologia, oferecem um discurso inovador. É o caso de Alexandre Melo, crítico de arte no Expresso e de Tereza Coelho que escrevem vários artigos extremamente interessantes sobre o meu trabalho. (...)». [in Cristina L. Duarte, Ana Salazar - Uma biografia ilustrada, Novembro 2002, Temas e Debates].
Tereza Coelho foi a primeira directora da Elle, em Portugal, revista que foi aqui lançada em 1988; fez parte da equipa fundadora do Público, de onde saiu para o semanário Independente, onde dirigiu a revista «Livros», mais tarde transformada em «Os Meus Livros». Era editora nas Publicações Dom Quixote, e escreveu com Rui Cardoso Martins o argumento para uma longa-metragem, Duas Mulheres, neste momento em rodagem, com realização de João Mário Grilo.
Tereza nasceu a 2 de Março de 1959, em Quelimane, Moçambique, vindo para Portugal quando tinha 14 anos. Viveu na Figueira da Foz e depois em Lisboa, onde se formou em Línguas e Literatura, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

16.1.09

«Escrever é uma ocupação muito solitária»


No dia 16 de Janeiro de 1933 nascia em Nova Iorque Susan Sontag, distinguida com o Book Award em 2000, pelo romance histórico Na América, entre outros prémios. The Volcano Lover tornou-se um êxito em 1996. Apesar dos dois romances publicados nos anos 60, The Benefactor e Death Kit, Sontag tornou-se mais conhecida como ensaísta e crítica de cultura. Against Interpretation, primeiro publicado em 1966, é um marco nos estudos culturais, e veio a sedimentar a sua reputação como «nova intelectual». On Style e Notes on Camp («é-se atraída pelo Camp quando se compreende que a seriedade não basta») foram também importantes e inspiradores. A autora morreu a 28 de Dezembro de 2004. A revista Faces de Eva, edição 14 (2005), pela pena de Maria João Cabrita, tem um extenso artigo sobre Susan Sontag, «Com os olhos postos no mundo»: «Ensaísta e romancista, perfez o percurso intelectual na luta pela liberdade de expressão, os direitos humanos e a paz, tendo sido reconhecida como a intelectual americana mais europeia e das mais proeminentes da segunda metade do século XX. Feminista convicta e activista política, fanática da seriedade, soube manter a independência ideológica e, por isso mesmo, foi alvo da crítica quer da esquerda, quer da direita.»
Para além do mundo da palavra, interessou-se pelo mundo da imagem em movimento, tendo produzido alguns filmes experimentais, «Duet for Cannibals (1969), «Bother Carl» (1971), «Promised Lands» (1974), e mais tarde «Unguided Tour» (1983). No início dos anos 70 concedeu uma entrevista ao New York Times onde afirmou estar interessada no cinema: «aquilo que eu gosto na produção cinematográfica é da oportunidade de exercer uma parte da minha imaginação e das minhas capacidades numa via em que não as posso exercer como escritora. Um sentido visual, um sentido estrutural, um sentido musical. O prazer de trabalhar com pessoas. Escrever é uma ocupação muito solitária».
Excerto de uma entrevista com Susan Sontag e Agnés Varda.

Deste lado da história (II)

As Mulheres Republicanas e a Educação - Parte II

Foi nos Centros Escolares Republicanos que se estabeleceu e fortaleceu o contacto, o companheirismo e a cumplicidade entre os chefes do Partido Republicano e as mulheres professoras, escritoras, médicas, intelectuais, empresárias e domésticas que aderiram aos ideais da República. Muitas delas eram mães, filhas, esposas ou irmãs de republicanos. Nos Centros, elas participaram nas reuniões, debates e conspirações do Partido Republicano contra a monarquia. Aí se delineava a propaganda e a acção a desenvolver nos jornais, nas conferências e nos comícios, tornando-se algumas delas brilhantes oradoras, como por exemplo Ana de Castro Osório, Maria Veleda, Virgínia Quaresma, Maria O’Neil, Maria Clara Correia Alves, Lucinda Tavares, entre outras.
Muitas das professoras republicanas não se limitaram a aplicar o modelo educativo da República, antes o desenvolveram com ideias e práticas inovadoras. Maria Veleda e outras pedagogas, inspiradas nas teorias educativas de Francisco Ferrer y Guardia, defenderam uma educação integral, laica e racional, centrada no desenvolvimento harmonioso das crianças e jovens, valorizando igualmente as vertentes da instrução teórica e prática, o desporto, o contacto com a natureza e a formação ética e cívica. Preconizaram também a uniformização de currículos escolares para ambos os sexos e a coeducação, pois só o conhecimento mútuo e o convívio, na escola e fora dela, apagariam os preconceitos sociais que sustentavam as desigualdades entre homens e mulheres.
Sob a influência de Fröbel e Maria de Montessori valorizaram a educação infantil pré-primária e criaram a Associação Fundadora das Escolas Maternais, em 1907. Em 1909, fundaram a Obra Maternal da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, para recolher, educar e proteger as crianças abandonadas, pedintes ou em perigo moral que erravam pelas ruas de Lisboa. Também no âmbito da Liga, criaram cursos gratuitos da instrução primária, de francês, contabilidade, música e trabalhos manuais e promoveram conferências sobre economia doméstica, História, Geografia, Ciências, Educação Cívica e Política. Com estas iniciativas pretendiam remediar a injusta situação das mulheres que não tiveram acesso à instrução ou lhes foi vedada uma educação equivalente à dos homens, proporcionando-lhes os saberes indispensáveis à sua independência económica e ao exercício efectivo da cidadania.

Natividade Monteiro

15.1.09

Outras cidades

Esta sexta-feira é lançado na Covilhã o livro «Cidade e Território. Identidades, Urbanismos e Dinâmicas Transfronteiriças», pelas 11h30, no Anfiteatro 7.20 - Pólo IV da Universidade da Beira Interior - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Introdução por Prof. Domingos Vaz (Coordenador/Autor), apresentação pela Prof.ª Isabel Guerra (ISCTE) e comentário ao livro pelo Prof. J. Carlos Venâncio (UBI). O livro contém 'olhares' teórico-analíticos diferenciados sobre a cidade e o território, em particular sobre os territórios de baixa densidade da Raia Central Ibérica. 'Olhares' vindos de especialistas de diferentes universidades (seis portuguesas e uma espanhola) e com origem em áreas científicas diversas e das artes - Sociologia, Economia, Geografia, Ciências da Comunicação, Literatura, Arquitectura e Urbanismo. Através de uma postura interdisciplinar realiza-se uma mais completa abordagem dos temas e dos problemas das cidades e dos territórios de um e outro lado da fronteira luso-espanhola.

Deste lado da história (I)

Hoje a cidade das mulheres vai começar a publicar uma série de textos da autoria de Natividade Monteiro sobre o papel das mulheres portuguesas na história, nomeadamente na história do feminismo em Portugal. Antecipando as comemorações do centenário da República (1910-2010), e com o titulo genérico «Deste lado da história», o texto seguinte, «As Mulheres Republicanas e a Educação » - Parte I foi originalmente publicado pela autora no jornal «Ecos da Marofa».

Foi sobretudo a partir de 1906 que as mulheres convertidas aos ideais da República ganharam cada vez mais visibilidade na imprensa conotada com o Partido Republicano e outros sectores liberais e democráticos, escrevendo, fazendo conferências e dedicando-se ao ensino livre. Por ensino livre entendia-se toda a rede de colégios particulares, escolas dos Centros Republicanos e outras que defendiam um ensino liberal, moderno e secularizado, livre da influência religiosa e clerical.
O ideal educativo republicano visava instruir, educar e formar cidadãos úteis à família, à sociedade e à Pátria. À escola competia educar e guiar os alunos para a acção, para a realização de ideias e apetrechá-los com conhecimentos e técnicas para se inserirem no mundo moderno em constante progresso e mudança. Competia ainda desenvolver-lhes a vontade de serem pessoas resolutas, seguras de si próprias e cidadãos conscientes, activos e responsáveis. Os professores eram considerados os “árbitros dos destinos morais da Pátria” e os “guias supremos da consciência dos povos”.
À data da implantação da República, 5 de Outubro de 1910, as mulheres constituíam a maioria do professorado, não só dos Centros Escolares Republicanos, mas também das escolas oficiais, pois desde a reforma educativa de 1878 que se vinha assistindo à feminização do ensino primário. Assim, é relevante a influência que as mulheres vão exercer sobre as novas gerações, através da instrução e educação ministradas nas escolas liberais, sob a orientação de um modelo pedagógico que privilegiava os ideais da liberdade, da igualdade perante a lei, da justiça e da democracia. Num país com mais de 70% de analfabetos, os Centros Escolares Republicanos representavam em 1910 uma fatia significativa da oferta educativa dirigida aos mais desfavorecidos. Nesta data, eram cerca de cento e sessenta e cinco e contavam com mais de quatro mil alunos, sobretudo nas cidades de Lisboa e Porto. A este universo escolar de cariz republicano, juntavam-se a Associação das Escolas Liberais, a Liga Nacional de Instrução, o Grémio da Instrução Popular, o Grémio da Educação Racional, a Academia dos Estudos Livres, a Universidade Livre e a Escola Oficina nº. 1, novidade e modelo pedagógico das escolas primárias entretanto criadas e que sobreviveu até aos nossos dias.

Natividade Monteiro

In memoriam Lourdes Paes da Franca (III)


Natividade Monteiro, professora de História, investigadora e mestre em Estudos sobre as mulheres, escreveu sobre Maria de Lourdes Paes da Franca (na foto), tendo entrevistado esta bióloga portuguesa para a edição 20 da revista Faces de Eva. Aqui na cidade das mulheres ela relata-nos como a conheceu e ficou amiga dela.

Ainda me lembro da primeira vez que toquei à porta da Maria de Lourdes Paes da Franca [1926-2009] para lhe fazer perguntas sobre a Maria Veleda. Foi em 2001. Iniciada a minha investigação com o objectivo de elaborar a minha dissertação de Mestrado, procurava desesperadamente alguém da família que pudesse dar-me informações sobre um eventual espólio que me ajudasse a conhecer melhor a professora feminista, republicana e livre-pensadora que se destacou no movimento feminista da primeira vaga.
Por intermédio do INIP/IPIMAR consegui o contacto de Maria de Lourdes, viúva do neto de Maria Veleda, Pedro Emílio Guerreiro da Franca, brilhante investigador na área da biologia marítima, com vasta obra publicada, uma figura de referência a nível nacional e internacional e que deixou o seu nome ligado a uma nova espécie da «familia merlucidae», por ele descoberta nos mares de Moçambique; a merlucis paradoxus franca.
Durante alguns meses, partilhámos as "descobertas" que íamos fazendo sobre a Maria Veleda, ao retirar das caixas onde se encontrava o pequeno mas elucidativo espólio que a Maria de Lourdes e o Pedro tinham salvo da obsessão da avó de tudo querer destruir. Cada documento analisado sugeria uma recordação, uma história... Enfim, tantas memórias tecidas e entretecidas com a vida de Maria Veleda e outras feministas republicanas, como a Filipa de Oliveira e a filha, Lídia de Oliveira Esteves, e os seus netos, sobretudo o Carlos João, amigo íntimo do casal Franca, a Luisa Robertes, a Mariana Silva e tantas outras.
Assim entrei para a família Maria Veleda/Guerreiro da Franca que me adoptou e pela qual nutro um carinho especial.
Maria de Lourdes, Maria Veleda... Admirei ambas! Duas mulheres com o mesmo espírito de rebeldia contra as convenções e os preconceitos sociais, o mesmo sentido do dever, o mesmo amor pela liberdade e a democracia! Ambas dignificaram o património intelectual feminino, contribuíram para a afirmação pessoal e profissional das mulheres e foram um exemplo de cidadania. Viva a República!

Natividade Monteiro

14.1.09

continua...

fotografia: Rita Barros, «Presença da ausência», Pente 10, em Lisboa, Travessa da Fábrica dos Pentes, 10, Terça a Sábado, 15h-20h.

13.1.09

In Memoriam Lourdes Paes da Franca (II)

A bióloga Maria de Lourdes Paes da Franca (n.Lisboa, 1926-2009) e Pedro Guerreiro da Franca, seu marido, chefe de Missão, e neto de Maria Veleda (professora feminista, republicana e livre-pensadora que se destacou no movimento feminista da primeira vaga), investigador na área da biologia marítima, com vasta obra publicada, com dois investigadores e o comando do navio Baldaque da Silva, numa das Missões de Investigação de Biologia Marítima nos mares das ex-colónias (1958).


Maria de Lourdes Paes da Franca e a tripulação do navio Baldaque da Silva (1958).

9.1.09

Em nome delas

Faz hoje 101 anos que nasceu Simone de Beauvoir, a 9 de Janeiro de 1908. A revista Faces de Eva dedica-lhe a capa da sua edição 20 (Edições Colibri/ Universidade Nova de Lisboa). Como é hábito na revista deste grupo de investigação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, a sua estrutura editorial encerra várias secções, entre as quais «Pioneiras», onde são abordadas mulheres que se destacaram nas suas áreas de actividade profissional ou científica. Uma delas, Maria de Lourdes Paes da Franca (n. Lisboa, 1926-2009) deixou-nos no início do mês. Como escreve Natividade Monteiro - que a entrevistou em 2008 para esta revista - «Maria de Lourdes Paes da Franca foi a primeira bióloga portuguesa a entrar num barco da Armada, adaptado à investigação dos mares das ex-colónias portuguesas. Em 1958 não era permitida a estadia de mulheres a bordo de navios de guerra mas, devido à sua especialização, o seu nome foi superiormente proposto pela Junta de Investigação do Ultramar para integrar as equipas de investigação marítima. Embora houvesse alguma contestação, um despacho conjunto das duas tutelas, Ministérios da Marinha e do Ultramar, permitiu que embarcasse em viagens de longa duração.
Entre 1958 e 1970 fez várias campanhas de investigação a bordo dos navios "Baldaque da Silva", "Salvador Correia" (...)». Maria de Lourdes dizia que envelhecer é um fenómeno natural de que não nos apercebemos no decorrer da caminhada, processo difícil mas suportável se conseguirmos construir algo que tenha deixado um pouco de riqueza interior. Quem a conheceu sabe que ela o conseguiu. Agora a cidade das mulheres presta-lhe a sua homenagem. E os nossos oceanos também.

8.1.09

nozolino

Inaugura hoje, dia bom e revigorante (de tão gélido), mais uma exposição. Desta vez, de Paulo Nozolino na galeria Quadrado Azul (Largo dos Stephens,4), ao Bairro Alto. «bone lonely» reúne 32 fotografias e intitula também o livro que será publicado brevemente por uma editora alemã.

Há 4

São quatro os nomes reunidos numa exposição, a conhecer, a partir de hoje na galeria 111 no campo grande, 113, em Lisboa. A cidade das mulheres recomenda: «A4», com Rigo 23, Ana Vidigal, Fátima Mendonça, Franscisco Vidal.

Teresa



A Cidade das Mulheres dá os parabéns à nossa cantora. Parabéns Teresa!
«Se todos fossem iguais a você»: Teresa Salgueiro & Septeto João Cristal.

5.1.09

«A Voz Feminina»

Janeiro, 5, 1868: «Publicou-se em Portugal o primeiro jornal feminista. Dirigido por Francisca Wood, portuguesa casada com um inglês. "Não queiramos por mais tempo ser o que até agora temos sido - bonecas." Foram publicados 102 números. [in Agenda Feminista 2009, Coordenação de Luísa Paiva Boléo, Edição Umar].
Na maior parte dos seus editoriais, «A Voz Feminina - Jornal Semanal, Scientífico, Litterário e Noticioso» abordava aquela que era a matéria de divulgação primordial do periódico: os direitos das mulheres, a necessidade da sua educação e esclarecimento. Publicou-se entre 5 de Janeiro de 1868 e 26 de Dezembro de 1869.

4.1.09

Reunião global

Dia 31 deste mês de Janeiro, Londres vai receber uma reunião internacional de luta contra o sexismo e o racismo: «International Gathering of the Global Women's Strike and International Women Count Network, The Struggle against sexism & racism: an international comparaison». Até dia 8 de Fevereiro terão ali lugar vários eventos, entre os quais um ciclo de cinema. A seguir.

2.1.09

1893-2009


A mulher mais velha do mundo era portuguesa, tinha 115 anos, nascida na Urqueira (Ourém), tendo trabalhado toda a sua vida activa na agricultura.
À semelhança da escritora, jornalista e feminista Maria Lamas, também esta outra 'mulher do meu país', Maria de Jesus, nasceria naquele ano de 1893, vindo neste caso a atravessar três séculos! No ano do seu nascimento publicava-se ainda (entre outros periódicos), o Almanache das Senhoras, dirigido por Guiomar Torrezão.